O fenômeno, em si, não é novo. O que chama atenção é a superficialidade com que temas centrais da política internacional continuam sendo tratados por atores que aspiram conduzir o Estado brasileiro, expondo, em redes sociais, um preocupante e decepcionante despreparo. A Venezuela volta a ser instrumentalizada como símbolo: ora para discursos anticomunistas simplificadores e reducionistas, ora para narrativas messiânicas de salvação democrática. Em ambos os casos, observa-se a redução da política externa a discursos vazios, desprovidos de análise estratégica, histórica e diplomática, revelando um profundo empobrecimento intelectual do debate público.
Poucas horas após as manifestações entusiasmadas, o cenário político concreto mostrou-se bem distinto daquele anunciado com euforia, deixando os defensores da intervenção no vácuo. Apoiado por Trump, o regime venezuelano manteve-se, as correlações de força permaneceram inalteradas e a realidade voltou a demonstrar que a política internacional não se move por desejos, declarações passionais ou vídeos de campanha. Enquanto isso, o povo venezuelano segue à mercê dos fatos e desdobramentos que ainda virão. Esse contraste evidencia um ponto central: política externa não é espaço para “lacração”, tampouco para posicionamentos apressados e ideologicamente carregados. Trata-se de um campo que exige técnica, prudência e leitura refinada de múltiplas variáveis históricas, econômicas, jurídicas, geopolíticas e diplomáticas.
O episódio, contudo, abre uma discussão necessária e inadiável: a urgência de inserir um debate sério e qualificado sobre política externa nas campanhas eleitorais. Não como retórica vazia, mas como compromisso programático efetivo. Nas últimas eleições e durante os mandatos de Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, a política externa brasileira foi fortemente ideologizada, em sentidos distintos, mas com efeitos semelhantes, produzindo impactos diretos sobre o comércio exterior, a imagem internacional do Brasil e sua capacidade de atuação pragmática nos foros multilaterais e no espaço regional. Ainda assim, raramente os candidatos são instados a explicitar, com clareza, suas concepções, prioridades e limites nesse campo, o que contribui para a frustração e o sentimento de engano de parte do eleitorado.
Causa especial preocupação que alguns dos que se apressaram em apoiar a intervenção americana na Venezuela demonstrem desconhecimento elementar sobre relações internacionais e estratégia política regional. Política externa não se improvisa, não se aprende em redes sociais e tampouco se constrói a partir de impulsos morais seletivos. Aqueles que seriamente se apresentam como candidatos a governar o País precisam se preparar à altura da responsabilidade que almejam assumir. O Brasil possui uma tradição diplomática reconhecida internacionalmente por seu profissionalismo, tecnicidade e compromisso com soluções negociadas. Transportar para o governo uma visão amadora, emocional e ideologizada representa, no contexto contemporâneo e diante da complexidade do cenário internacional, um risco institucional relevante.
A lição que fica é clara. A política externa, como advertiu Henry Kissinger, não é um exercício de virtude abstrata, mas de responsabilidade histórica, no qual decisões devem ser tomadas à luz de suas consequências, limites e interesses de longo prazo. Exige a combinação de visão estratégica com disciplina intelectual; sem isso, transforma-se em mera retórica. Que o episódio venezuelano sirva, ao menos, como alerta: diplomacia e política internacional não são terreno para amadores, mas para aqueles dispostos ao estudo rigoroso, ao aprimoramento técnico e à compreensão da complexidade do mundo.
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