A intervenção na Venezuela e as lições sobre a política externa – Prefeitura de Feira Nova

A intervenção na Venezuela e as lições sobre a política externa

Publicado em 10 de janeiro de 2026, por Marcos Farias
Aintervenção norte-americana na Venezuela desencadeou, quase instantaneamente, uma enxurrada de manifestações ideologizadas no Brasil. Em poucas horas, influenciadores, supostos especialistas, candidatos à Presidência da República, parlamentares e lideranças políticas gravaram vídeos e publicaram textos inflamados, favoráveis ou contrários à ação, bradando palavras de ordem em defesa da “liberdade do povo venezuelano”. Celebraram, criticaram ou buscaram legitimar uma intervenção externa cuja complexidade sequer havia sido minimamente compreendida. Essencialmente defender uma intervenção de um Estado em outro é uma sandice. 

O fenômeno, em si, não é novo. O que chama atenção é a superficialidade com que temas centrais da política internacional continuam sendo tratados por atores que aspiram conduzir o Estado brasileiro, expondo, em redes sociais, um preocupante e decepcionante despreparo. A Venezuela volta a ser instrumentalizada como símbolo: ora para discursos anticomunistas simplificadores e reducionistas, ora para narrativas messiânicas de salvação democrática. Em ambos os casos, observa-se a redução da política externa a discursos vazios, desprovidos de análise estratégica, histórica e diplomática, revelando um profundo empobrecimento intelectual do debate público.

Poucas horas após as manifestações entusiasmadas, o cenário político concreto mostrou-se bem distinto daquele anunciado com euforia, deixando os defensores da intervenção no vácuo. Apoiado por Trump, o regime venezuelano manteve-se, as correlações de força permaneceram inalteradas e a realidade voltou a demonstrar que a política internacional não se move por desejos, declarações passionais ou vídeos de campanha. Enquanto isso, o povo venezuelano segue à mercê dos fatos e desdobramentos que ainda virão. Esse contraste evidencia um ponto central: política externa não é espaço para “lacração”, tampouco para posicionamentos apressados e ideologicamente carregados. Trata-se de um campo que exige técnica, prudência e leitura refinada de múltiplas variáveis históricas, econômicas, jurídicas, geopolíticas e diplomáticas.

O episódio, contudo, abre uma discussão necessária e inadiável: a urgência de inserir um debate sério e qualificado sobre política externa nas campanhas eleitorais. Não como retórica vazia, mas como compromisso programático efetivo. Nas últimas eleições e durante os mandatos de Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, a política externa brasileira foi fortemente ideologizada, em sentidos distintos, mas com efeitos semelhantes, produzindo impactos diretos sobre o comércio exterior, a imagem internacional do Brasil e sua capacidade de atuação pragmática nos foros multilaterais e no espaço regional. Ainda assim, raramente os candidatos são instados a explicitar, com clareza, suas concepções, prioridades e limites nesse campo, o que contribui para a frustração e o sentimento de engano de parte do eleitorado.

Causa especial preocupação que alguns dos que se apressaram em apoiar a intervenção americana na Venezuela demonstrem desconhecimento elementar sobre relações internacionais e estratégia política regional. Política externa não se improvisa, não se aprende em redes sociais e tampouco se constrói a partir de impulsos morais seletivos. Aqueles que seriamente se apresentam como candidatos a governar o País precisam se preparar à altura da responsabilidade que almejam assumir. O Brasil possui uma tradição diplomática reconhecida internacionalmente por seu profissionalismo, tecnicidade e compromisso com soluções negociadas. Transportar para o governo uma visão amadora, emocional e ideologizada representa, no contexto contemporâneo e diante da complexidade do cenário internacional, um risco institucional relevante.

A lição que fica é clara. A política externa, como advertiu Henry Kissinger, não é um exercício de virtude abstrata, mas de responsabilidade histórica, no qual decisões devem ser tomadas à luz de suas consequências, limites e interesses de longo prazo. Exige a combinação de visão estratégica com disciplina intelectual; sem isso, transforma-se em mera retórica. Que o episódio venezuelano sirva, ao menos, como alerta: diplomacia e política internacional não são terreno para amadores, mas para aqueles dispostos ao estudo rigoroso, ao aprimoramento técnico e à compreensão da complexidade do mundo.

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